Resumo
O
presente artigo tem como propósito elucidar os leitores para a importância da
educação para o empreendedorismo, a sua emergência e as perspetivas em torno do
conceito.
É
curioso que apesar de ser uma área ligada ao empreendedorismo, ainda se
encontra com uma grande falta de coerência científica, uma vez que não existe
nenhuma teoria que a sustente. Contudo, existem evidências, suportadas em
estudos longitudinais, de que a educação para o empreendedorismo produz efeitos
positivos em futuros empreendedores/as.
Tendo
em conta que as economias contemporâneas necessitam de empreendedores/s, é
inequivocamente fundamental que se aposte na nesta área, servido das melhores
abordagens de ensino possíveis.
Nota introdutória
Como a
"nova" economia do século 21 se continua a desenvolver em torno do
conhecimento, serviços e atividades de informação, baseados na capacidade das
empresas criarem e comercializarem o conhecimento, tornou-se evidente a sua
capacidade de gerar retornos sustentáveis (Apte, Karmarkar, e Nath, 2008;
Audretsch e Thurik, 2000; Black e Lynch, 2003; Ewing Marion Kauffman
Foundation, 2007). Concomitantemente, o conjunto central de habilidades
deste século inclui capacidades de resolução de problemas analíticos, inovação
e criatividade, a iniciativa, flexibilidade e adaptabilidade, o pensamento
crítico e habilidades de comunicação e colaboração (Autor, Levy, e Murnane,
2007; Boyd e Vozikis, 1994; Cavanagh e col., 2006; Goldin e Katz, 2008; Ewing
Marion Kauffman Foundation, 2007; Pink, 2008; Porter, Ketels, e
Delgado, 2007; Scherer, Adams, e Wiebe, 1989; Wagner, 2008).
Crescimento da educação
para o empreendedorismo
Durante as duas
últimas décadas, o ensino do empreendedorismo expandiu-se significativamente na
maioria dos países industrializados (Matlay e Carey, 2006). Tendo
por base esta premissa, as Instituições de Ensino Superior (IES) têm sido
apoiadas pela política do governo para fornecer programas de desenvolvimento de
competências para as Pequenas e Médias Empresas (PME), no sentido de
desenvolver um maior nível de habilidades que irão apoiar o crescimento de
pequenas empresas (Gordon, Hamilton e Jack 2010).
Katz (2003)
referiu que, só nos EUA, existiam mais de 2.200 cursos em mais de 1.600 escolas
no âmbito da educação para o empreendedorismo. No caso da União Europeia (UE), a
educação para o empreendedorismo assume como objetivos 1) preparar as pessoas a
serem mais responsáveis para se tornarem empresários ou pensarem em criar uma
empresa, e 2) contribuir para enfrentar, com êxito, o desafio do
empreendedorismo na UE (Comissão das Comunidades Europeias, 2006). Consequentemente,
o ensino do empreendedorismo tem sido promovido para incentivar o comportamento
empresarial e de pesquisa, sendo que esta área se tem desenvolvido
consideravelmente nos últimos anos (Edwards e Muir, 2005; Fayolle, 2005).
Verheul
e col. (2001, p. 34) referem que a educação para o empreendedorismo se
distingue da educação em geral, alegando que o ensino do empreendedorismo está focado
especificamente na "promoção do empreendedorismo e estimulação de
habilidades empreendedoras".
Diferentes perspetivas
sobre a educação para o empreendedorismo
Apesar deste
aparente crescimento, as perspetivas inerentes à educação para o
empreendedorismo não é consensual, tal como se descreve de seguida, com base na
perspetiva mais limitadora do conceito e seus efeitos práticos e, pelo
contrário, uma perspetiva mais positiva.
Alguns
estudos levantam dúvidas sobre a eficácia da educação para o empreendedorismo,
quer para os resultados económicos, quer para os individuais (Martinez e col.,
2010; Oosterbeek e col., 2010; Pittaway e Cope, 2007; van Praag e Versloot, 2007).
Argumenta-se, ainda, que a educação para o empreendedorismo precisa de
desenvolvimento concetual e teórico (Greene e col., 2004; Harrison e Leitch,
2005; Matlay, 2006). O'Connor (2012) refere que existe uma falta de clareza
sobre o trabalho específico que um empreendedor pode fazer dentro de uma
economia, fazendo com que o propósito da educação para o empreendedorismo seja vago
e sem foco de desenvolvimento específico, exceto, talvez, no caso de um
proprietário de start-up ou fundador
de um negócio/empresa. Assim sendo, Henry e colaboradores (2005) e Gordon e colaboradores (2010) admitem a
necessidade de fornecer suporte para o caso de programas de empreendedorismo,
através da importância de definir claramente o objetivo a fim de alcançar
resultados específicos de desenvolvimento económico regional.
Já no
que diz respeito a forma de conduzir o ensino do empreendedorismo, a falta de
conhecimento sobre as técnicas de ensino eficazes para educadores empresariais
é apresentada como um problema, uma vez que a investigação sobre como ensinar o
empreendedorismo é subdesenvolvida (Brockhaus, 2001). Alguns exemplos são
Duchénaut (2001): "... mais do que
qualquer outro, o modelo empresarial requer uma pedagogia interativa, deixando
a iniciativa para o aluno." (p. 142), e Carland e Carland (2001):
"A chave, que sentimos, é a
transferência da responsabilidade para a aprendizagem do professor para o aluno"
(p. 101).
Em
suma, as pesquisas na área da educação para o empreendedorismo são
caracterizadas por resultados empíricos pouco fidedignos, sem base teórica
(Landström, 2000). De acordo com Watson (2001), a ausência de uma teoria, reduz
a credibilidade da investigação neste domínio, pois, como refere Gartner
(2001), o problema está relacionado com um desconhecimento de premissas básicas
em que se baseiam.
Em
contrapartida, na perspetiva oposta, os investigadores argumentam que o
investimento no desenvolvimento da educação para o empreendedorismo no ensino
superior trará retornos fundamentalmente a longo prazo (Galloway e Brown, 2002;
Hegarty e Jones, 2008). Outros estudos longitudinais sustentam este ponto de
vista (Matlay, 2008), que sugerem que a educação para o empreendedorismo pode
ter um impacto positivo sobre os resultados empresariais, mas apenas após
longos períodos de indústria ou experiência comercial. Em particular, o ensino
do empreendedorismo pode ser uma das maneiras mais eficazes para facilitar a
transição de uma população crescente com estudos superiores da educação para o
trabalho (Matlay e Westhead, 2005; Matlay, 2005).
Inicialmente,
alguns investigadores colocavam a hipótese de que os empresários teriam menos formação
do que a população em geral (Jacobowith e Vilder, 1982), todavia, a evidência
mais recente, sugere-se que as pessoas que criam empresas têm um maior nível de
educação do que as pessoas que não o fazem (Bowen e Hisrich, 1986; Bates,
1995). Especificamente, alguns autores argumentam que o sucesso empresarial é
muitas vezes proporcionado em função de competências empresariais com base na educação
para o empreendedorismo (Borjas, 2000; Parker, 2004). Por exemplo, muitas vezes
é sugerido que os graduados de escolas ligadas aos negócios, e que beneficiaram
de cursos de empreendedorismo, têm uma maior propensão a se tornarem
empresários (ver, por exemplo, Brown, 1990; Vesper e Gartner, 1996). Além
disso, a probabilidade de se envolver na criação de empresas de sucesso
aparentemente aumenta com a presença em " programas altamente
classificados de pós graduação" MBA (Callan e Warshaw, 1995). Ainda, segundo
um estudo longitudinal de Matlay (2008) e com base nos resultados emergentes do
mesmo estudo, pôde-se concluir que o ensino do empreendedorismo teve um impacto
positivo sobre os resultados empresariais relacionados com as aspirações de
carreira dos 64 graduados na amostra da pesquisa. Na mesma linha, Cho (1998)
também sustentou que se o talento empresarial fosse inato e não se pudesse
desenvolver ao longo do tempo, a educação para o empreendedorismo na tinha
qualquer significado, assim, o talento empreendedor não deve ser entendido como
inato. O mesmo autor revela que a educação para o empreendedorismo promove a propensão
para o risco, uma vez que o empreendedorismo está relacionado com conhecimentos
e habilidades para estimular a motivação de um indivíduo a criar um novo
empreendimento. Este resultado sugere que o impacto da educação para o
empreendedorismo em países onde a cultura do empreendedorismo orientado é pobre
ou ainda em fase embrionária e de desenvolvimento, será maior do que em países
com uma cultura de empreendedorismo orientado forte. Este estudo aponta para um
impacto positivo da educação e formação empresarial, incluindo o conteúdo e a
natureza da educação para o empreendedorismo que é baseada em interações,
reflexões, bem como em princípios de ação de aprendizagem que motivam
empresários a serem inovadores e criativos nos seus empreendimentos (Lee, Chang
e Lim, 2005).
Como
refere Peter Drucker, "O empreendedorismo
não é nada mais do que uma disciplina e, como qualquer disciplina, pode ser
aprendida.". O aspeto chave de Drucker é que a inovação não é uma
atividade limitada a uma classe especial de pessoas (Drucker, 1985, P.24). Assim,
segundo Ulrich (2001), "a importância da educação empreendedora é derivada
da importância do empreendedor para o nosso sistema económico", sendo que o ensino do empreendedorismo influencia o comportamento e a
tendência empresarial (Kolvereid e Moen, 1997) (Henderson e Robertson, 1999;
Lüthje e Franke, 2002; Sexton e Bowman, 1983).
Conclusão
A
educação para o empreendedorismo pode tornar-se fundamental e deve poderia
estar inserida na organização curricular, desde o 1ºciclo até ao ensino
superior. Desde que nascemos que temos a tendência para escolher profissões que
implicam trabalhar por conta de outrem. Isto pode dever-se à educação que é
desenvolvida ao longo do tempo que, por sua vez, até pode influenciar os nossos
comportamentos e atitudes face ao empreendedorismo no futuro. Talvez por ser
verdade é que o nosso país apresenta uma elevada aversão ao risco, relativo ao
empreendedorismo, e, consequentemente, acabam por existir poucos
empreendedores/as.
O
desenvolvimento de competências nesta área pode tornar-se uma mais-valia para
as pessoas, pois são transversais a qualquer profissão. Como tal, podemos
pensar que o empreendedorismo não deve ser associado, única e exclusivamente, à
área da gestão. Todos poderão ser empreendedores/as, independentemente da sua
área de formação. Mas o que poderá eventualmente acontecer, tal como sugerem
várias investigações longitudinais, é que se absorvermos conhecimento inerentes
ao empreendedorismo, teremos maior probabilidade em vir a desenvolver um
empreendimento.
Todavia,
isto leva a uma nova questão, o modo como os “educadores para o empreendedorismo”
abordam o tema, transmitem os seus conhecimentos. Este profissional terá de
realizar um trabalho centrado no aluno, para que ele próprio, de modo autónomo,
possa desenvolver competências específicas na área do empreendedorismo. É uma
aprendizagem muito ativa, com o poder no lado do aluno. Assim sendo, o melhor
professor poderá ser aquele que motiva mais o aluno e o coloca no caminho
certo.
A
educação para o empreendedorismo será um tema cada vez mais atual e em voga.
Conquanto, na atualidade, já é muito frequente falar-se de empreendedorismo.
Todavia, falar não chega. É fundamental que nos organizemos, enquanto
sociedade, e comecemos a despertar as competências empreendedoras nas nossas
crianças e por todos os adultos. O Mundo encontra-se repleto de desafios, na
maior parte exigentes. Assim sendo, só os melhor adaptados conseguirão
triunfar…
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